Nishida Sensei
Ao deixar o Japão na década de 60 e vir para o Brasil como imigrante técnico, época em que por aqui era requisitada a mão-de-obra de engenheiros japoneses, o senhor Makoto Nishida, 62 anos, não imaginava que no ocidente poderia virar um daqueles sábios que proferem palavras nem sempre captadas de imediato pelos seus discípulos. Mas na busca por uma atividade física, Nishida tornou-se um sábio. No Brasil, recém chegado ao bairro da Liberdade, descobriu o aikidô, arte marcial que o aproximava de sua terra natal.
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Quase meio século depois, Nishida hoje é um sensei, palavra que designa mestre, com graduação de sexto dan (sexto grau após a faixa preta) e uma das grandes autoridades brasileiras no ensino do aikidô, arte marcial que se difere das outras, principalmente por não visar à derrota do adversário e por não permitir qualquer tipo de competição. Embora exista embate corpo a corpo, a luta, na verdade, é sempre uma batalha interna.
O aikidô é uma arte marcial relativamente nova. Foi criada por Mohirei Ueshiba (1883-1969), no Japão, que desenvolveu a prática a partir da experiência pessoal e compilação de elementos de diversas outras artes marciais, focando na busca pela saúde e harmonia com o ritmo da natureza. Aikidô quer dizer justamente "caminho da harmonização de energia", sendo o Ki, a energia, o elemento vital.
Movimentos circulares são usados em toda a prática. Quem assiste a uma aula, percebe a grande quantidade de rolamentos. "Uma das coisas mais importantes do aikidô é a filosofia de seguir o fluxo natural das coisas. Ao deixar correr a energia, o praticante ganha tranqüilidade, paz e equilíbrio. Quem faz aikidô fica mais calmo", garante o mestre Nishida. Nessa arte marcial não se recua, mas usa-se a energia do adversário para empurrões e giros.
Antes de descobrir o aikidô, mestre Nishida buscou escolas de caratê no Brasil, mas não achou nada de seu agrado. E o aikidô, mesmo sendo japonês, ele conhecia pouco. Foi só depois da segunda Guerra Mundial que essa luta passou a ser divulgada. Antes, era restrita a uma elite, como guardas de honra imperial ou faixas pretas acima do quinto grau de judô. Ele achou uma academia na Aclimação em uma lista de serviços para japoneses e começou a treinar com os mestres Reishin Kawai e Keizen Ono. "Por muito tempo, levei a vida de engenheiro e de professor de aikidô. Mas em 1978, voltei ao Japão para estudar a arte marcial e foi ficando cada vez mais sério. Algo me puxava para isso. Agora vou sempre ao Japão, de dois em dois anos."
Praticantes
Pelo menos 1.500 pessoas praticam o esporte no Brasil. A não-violência e o princípio da harmonia do aikidô fez com que a prática fosse levada a locais como a Associação Cultural Palas Athena, de São Paulo, conhecida por projetos que promovem a paz.
Duas vezes por semana, na hora do almoço, a professora Elisa Kozasa, 39 anos, ensina a arte que aprendeu com o professor Nishida a um grupo de pessoas interessadas em aprimorar o uso do Ki. Elisa começou a praticar o aikidô aos 12 anos. "Meu pai nasceu no Japão e era faixa preta no judô, eu queria praticar também, mas minha mãe não deixava. Tive que crescer um pouco para conseguir autorização. Mas no lugar do judô, veio o aikidô, que era pouco conhecido naquela época", recorda a professora.
Um dos ensinamentos que Elisa tenta passar aos alunos é a respeito da harmonização com os parceiros, a percepção do outro e a sincronia dos movimentos. "O aikidô é uma fonte de autoconhecimento, é um caminho de paz."
Formada em biologia, Elisa trabalha com pesquisas sobre os efeitos da meditação no cérebro na Unifesp e no centro de pesquisas do Hospital Albert Einstein. "Até aqui o aikidô me ajuda, pois não deixa de ser uma meditação em movimento. É preciso estar inteiro, vivendo o aqui e o agora na hora da prática, como a meditação."